A inevitabilidade da mudança.
Quando, numa imaculada manhã de Setembro, entrei pela Faculdade de Letras adentro, era tarde demais. Sofrera o ensino obrigatório com resignação quase cristã e iludira-me sobre as particularidades messiânicas da Faculdade. O cenário para a tragédia estava, portanto, montado.
As minhas esperanças eram imensas e a minha cegueira total. Para mim, a Faculdade de Letras de Lisboa era uma instituição oitocentista, com tertúlias e discussões acesas sobre política e literatura, com personagens insanas aos gritos pelos corredores, a caminho do bar para encontrar o conforto do álcool. Como num romance do Eça. Mas a realidade estava muito afastada das minhas suposições. E bastava reparar nas criaturas que praticavam as praxes e as impunham a outras criaturas que se rebaixavam voluntariamente e a troco de nada, para começar a desfazer a fantasia que tão infantilmente criara.
Os dias passavam, as aulas sucediam-se na sua entediante inanidade, e a minha fantasia ia desaparecendo, como uma espécie de nevoeiro que vai deixando, aos poucos, ver o que está além. E além estava a dura realidade.
Para dizer a verdade, eu não me lembro do que esperava, ou se sequer esperava algo concreto, do curso de Literatura Inglesa e Americana. Hoje, desfeitas todas as ilusões, creio que as minhas expectativas para o curso eram como as aspirações políticas do PCP: abstracções, delírios, utopias. Eu esperava uma instituição estilizada e romanceada onde reinava a mais pura ociosidade criadora, não esperava um monstro burocrático a impingir-me regras científicas para analisar e avaliar um poema. Sempre execrei o formalismo com que tratavam a literatura no Secundário e tinha esperança que a mudança para o Superior me livrasse desse fantasma.
Mas, no essencial, o ensino não muda entre o Secundário e o Superior. A inanidade dos professores é a mesmíssima; e a imbecilidade dos alunos também. Excepções há, mas muito poucas; tão poucas como no Secundário. O resto é o vácuo. O ensino de Letras (e de Literatura em particular) em Portugal está votado à mais desértica das realidades; não se ensina para se praticar, ensina-se para se praticar o ensino. Onde estão os brilhantes Sociólogos? E os inventivos Geógrafos? E os prolíficos Historiadores? Estão num liceu a dar aulas a imbecis. Só os tradutores escapam a este cenário desolador. Há algum escritor português relevante que tenha uma licenciatura em Literatura? Desconheço, mas duvido. Em dois semestres, não aprendi nada sobre literatura. Mas a verdade é que ninguém esperava que sim. Só eu.
Ensina-se e aprende-se literatura como se ensina e se aprende matemática, com fórmulas indiscutíveis e técnicas científicas: um absurdo que só agrada aos mentecaptos e a quem não quer saber de literatura para nada. Com raríssimas excepções, os professores aviam as inanidades e os alunos escrevem-nas, estudam-nas e decoram-nas. Não lhes passa pela cabeça pensar pela própria cabeça, e a verdade é que ninguém quer nada de semelhante.
Uma palavra sobre os meus colegas. Desde o início estabeleci com eles uma relação de proporcionalidade inversa: quanto mais os conhecia, menos os queria conhecer. Nas aulas, sucediam-se os comentários grotescos, absurdos, da mais pura e absoluta imbecilidade; eu sofria cada palavra que diziam ou, simplesmente, adormecia de aborrecimento. A título de exemplo, numa aula de Inglês Proficiência, o professor teve de explicar a uma aluna a diferença entre «Son» e «Sun»; noutra um aluno pensava que Homero era uma personagem de James Joyce; e ainda as mil e uma confissões de amor incondicional a Paulo Coelho, Dan Brown ou Nicholas Sparks. Mas há pior: um professor contou-me em tom jocoso que conhecera duas meninas que nunca tinham lido um livro, duas meninas a caminho do terceiro ano de Literatura Americana.
De resto, uma das professoras criou um blog para lá colocarmos as nossas considerações absurdas sobre variados textos, e nota-se que os petizes não sabem escrever uma linha, uma frase que seja, sem se atropelarem nas vírgulas ou se esquecerem dos acentos. E, mais do que isso, não conseguem exprimir uma ideia. Nota-se que tentam e repara-se que falham. Se há alguma ideia exprimida com clareza no meio daqueles textos vazios e entediantes, é, quase de certeza, um acaso. E nas caixas de comentários, sem o auxílio do dicionário do Word, espalham-se na ortografia, enquanto fazem ligações entre tudo o que se lembram de ter lido nas fotocópias ou na Internet e as justificam com mais frases sem significado.
Não é novidade que cheguem semi-analfabetos ao Ensino Superior; mas foi uma surpresa verificar que, da minha geração, são a maioria. Os meninos têm muito estilo e as meninas são muito bonitas e atraentes, são todos muito fixes e porreiros, mas não fazem ideia de como articular a linguagem, nem sob a forma oral e muito menos sob a forma escrita.
Como eu disse, é o deserto. O curso de Literatura e a Faculdade de Letras constituem para mim um fardo e por isso encontro-me numa situação inviável. Por mais avesso que seja à mudança, não posso deixar de achar que, neste momento, ela me é indispensável. Por isso, muito provavelmente, mudo-me para a Universidade Nova de Lisboa, curso de História.
Há 4 dias